Jorge Barbosa

02/05/2013 17:04

Jorge Barbosa nasceu em 28 de junho de 1976, em São Paulo. Em 1984, mudou-se com sua família para a cidade natal de seus pais, Alagoinha, no interior de Pernambuco. Jorge reside, atualmente, em Recife, PE, onde é professor universitário. Seu primeiro livro, “A Jovem dos Meus pensamentos”, foi publicado em 2012.

   ENTREVISTA

 

Fale um pouco sobre você, sua trajetória acadêmica e profissional:

Eu devia ter uns 15 anos, quando tocado por alguma sensibilidade de ordem espiritual, desejei ser padre, mais especificamente, franciscano.  Alguns anos depois ingressei na ordem na condição de postulante. O curto tempo que passei ali foi muito proveitoso, principalmente, no que diz respeito a  reflexão sobre nossa existência, no significado da vida, da importância do autoconhecimento como um caminho de se chegar a Deus e a orientar a própria vida. Ao deixar a instituição, deixei também todo e qualquer vínculo religioso. Depois disso, decidi que me dedicaria aos estudos. Passei, então um ano estudando para o vestibular da UFPE. Foi um período bastante complicado. Tinha que escolher uma profissão, um caminho a seguir. A princípio, pensei em fazer alguma coisa nas áreas tecnológicas, contudo, percebi que, apesar de gostar dessa área, não me encaixava bem ali. Lembro que fui sabiamente (reconheço isso, hoje) aconselhado a partir para a área de humanas. A questão agora seria qual o curso deveria escolher? Meu pai queria que estudasse direito, mas naquela ocasião eu estava inclinado à filosofia.  Lembro que isso foi motivo de grandes discussões. O argumento era o de sempre: “filosofia não dá dinheiro”, “direito dá mais futuro ...” Não deixavam de estar errados, do ponto de vista pragmático. Já que não tenho esse tipo de pragmatismo como filosofia de vida, optei por Ciências Sociais (sociologia).  Foi uma escolha solitária. Até o momento de divulgação da lista da coveste não disse qual teria sido minha escolha.  O curso de Ciências Sociais foi um divisor de águas na minha vida. Foi nesse período da faculdade que terminei de me desvincular de tudo que tinha apreendido na igreja – não quero dizer que o que vivi estava errado – precisava fazer esta separação, então, estudar a filosofia e pensadores sociais me ajudou a reorganizar  nas minhas escolhas . Foi a partir do curso de sociologia que descobri que estudar Direito ou Filosofia não iria tirar alguns estigmas que um rapaz, educado no interior, traz consigo quando vem morar numa metrópole, como Recife.  Na prática são dificuldades diversas: dificuldades na formação educacional, dificuldades de sentir-se só, de superar dificuldades materiais. Acho que esse foi meu aprendizado na sociologia, foi, também, minha segunda atividade: aprender a viver longe da família, aprender a viver numa lógica urbana. Não tenho como negar que vivi como se tudo fosse uma atividade, um trabalho diário. Já no final do curso arrumei meu primeiro trabalho formal: uma escola de ensino fundamental e médio. Descobri, na prática, o que é ser professor no Brasil, o que é ser professor em Recife. Alunos com problemas nas suas famílias que tendem a descarregar tudo na escola e, nós com nosso saber acadêmico, sabendo muito pouco como lidar com isso.  Ensinar. Estudar, buscar conhecimento. Lembro que uma das coisas que sempre tive medo era me tornar alguém alienado, de perder a noção de minha existência. Como professor, temos uma missão. Dois anos após, resolvi fazer seleção para o mestrado em sociologia. Afastei-me de minha atividade docente para me dedicar por um ano a estudar a bibliografia do mestrado e fazer o projeto de dissertação. Este foi um dos períodos que mais estudei na minha vida. Naquele momento estava cheio de autoconfiança. Participei de todo o processo seletivo: provas e entrevista. Quando sai da sala depois de uma hora de entrevista (a média de entrevista era 30 minutos), me tranquei no quarto por uma semana.  Depois de alguns meses voltei à sala de aula. Dois anos depois, abriu um edital para trabalhar como apoio técnico à pesquisa na sociologia. Apesar de não ser bem o que pretendia, veio como consolação. Convivi com pesquisadores de minha área e, o que aprendi, tenho convicção, que não teria aprendido a metade se estivesse no mestrado, como pretendia naquela ocasião. Esse período de trabalho na sociologia foi um tempo útil. Aproveitei pra fazer duas especializações e dedicar-me à literatura. Atualmente, sou professor da Faculdade Metropolitana. Diria que vivo um bom momento profissional. Gosto de ser professor.

Como e quando decidiu ser escritor?

Creio que minha decisão de ser escritor está muito relacionada com minha história de vida, minha adolescência e parte de minha juventude no interior. Sempre estive perto dos livros. A educação religiosa e, minha proximidade com religiosos franciscanos favoreceu muito. Lembro que certa vez estava sentado num banco de praça, então, um senhor parou e perguntou: “você é daqui?” “Sim”, respondi meio sem jeito quando ele completou: “Você é o primeiro jovem que vejo lendo, com um livro na mão”. Pode parecer absurda a afirmação mas, era verdade. Agora, o que foi determinante para que eu pegasse caneta e lápis e dissesse ‘vou ser escritor’ está relacionado com minha reprovação na seleção de mestrado.  Não sei o que aconteceu, até hoje não sei. Criei uma fantasia de que minha vida e futuro estavam unicamente naquilo. Não ter conseguido foi frustrante. Vi todos os meus amigos, naquele ano, serem selecionados. Fiquei deprimido. Entrei numa fase que acordava, trabalhava e dormia. Era uma coisa meio sem sentido, fazia por fazer, vivia por viver – simplesmente porque tinha que fazer.  Numa dessas noites de insônia peguei um romance que tinha comprado num sebo, no centro da cidade. Comecei a lê-lo. Quando terminei de ler a última frase tinha me dado conta que já estava atrasado duas horas para o trabalho. A história do livro era boba, uma ação com retoques históricos. Até hoje não sei explicar, mas aquilo mexeu comigo. Depois de muitos anos tinha conseguido me desligar de tudo. Aquela noite parecia ter sido um breve instante, mergulhei naquela história. Quando tinha me dado conta disso vi que poderia fazer isso com a escrita. A leitura e a escrita como um estilo de vida seu. Algo que depende apenas de si. Passei o dia em casa. Minha esposa estranhou essa manhã que não sai de casa, pois não existia motivo aparente. E, para deixá-la ainda mais curiosa, eu disse: “se ligarem você não sabe de mim ...”. Sentei na frente do computador e comecei a escrever minhas primeiras linhas. Quando terminei eram oito, oito e meia. Passava o jornal nacional quando me virei pra minha esposa e disse: “vou ser escritor”. Depois de algum tempo, organizando papeis, cadernos e coisas antigas me dei conta que tinha muita coisa escrita. Blocos de notas, cadernos, anotações e agendas, descobri coisas do meu tempo de ensino médio. Acho que sempre tive essa necessidade, a decisão veio num momento oportuno.

Fale um pouco de suas publicações.

Quando você diz “vou ser escritor” começa logo aquela indagação: bom escritor escrever e, consequentemente, publica um livro. A primeira coisa que fiz quando decidi ser escritor foi entender o que é ser um escritor. Entre alguns livros e artigos lidos descobri que uma das ferramentas úteis para quem começa é publicar em blogs.  Quando comecei não tinha essa febre de redes sociais, o momento eram os blogs que faziam sucesso. Meus primeiros textos começaram nos blogs. No meu trabalho de pesquisa, publiquei três artigos científicos, como coautor, dois deles saíram em livros. Engraçado que esta publicação veio primeiro que o trabalho literário. Ao vê meu nome impresso, pela primeira vez, não senti nada. Já estava nos objetivos do projeto a publicação de um livro com artigos. Cumprimos um dever profissional. Ao organizar meu primeiro livro, um livro de contos, mesmo sem ter a certeza que o publicaria foi diferente. Por falar no livro de contos, depois de alguns anos de trabalho, testes com a escrita resolvi tornar parte desses escritos como livro. Tenho um pouco de dificuldade de falar sobre meus escritos. Quando escrevo tento evitar aspectos autobiográficos (não significa que não os faço). Nesse trabalho selecionei história escritas durante a madrugada ao som de jazz e blues. Acho que por isso alguns personagens são parecidos. A dinâmica das histórias parece um pouco com este som, pois foi essa a intenção.

Quando e como publicou seu primeiro livro, foi uma produção independente ou através de uma editora?

Em março de 2011 estava com a coletânea pronta.  Já tinha encaminhado à varias editoras mas, nenhuma tinha, sequer, respondido.  Em novembro do mesmo ano, encaminhei para uma dessas editoras especializadas em lançar novos escritores. Quinze dias depois tive uma resposta favorável à publicação. Em abril de 2012 estava com os exemplares em cima de minha mesa, feliz por ver meu nome impresso. De alguma forma estava entrando no mundo mais formal do escritor.

Explique por que optou seguir por esse caminho para publicar a obra.

Na ocasião foi o caminho mais favorável que encontrei. Penso que meus próximos livros serão produções independentes. A lógica do mercado não privilegia novos escritores, ou pelo menos, àqueles carentes de algum apadrinhamento literário.

Conte como surgiu a ideia de publicar o primeiro livro.

Vi que tinha muita coisa escrita. Queria, também, me testar. Saber se realmente estava pronto pra lançar um livro.

O que aconteceu nos bastidores da produção do livro, desde a concepção da ideia até a publicação, ao você segurar, pela primeira, vez o exemplar da obra?

Isso é uma coisa complicada. Algumas coisas você só aprende quando vive. Quando o editor falou que o livro poderia ser publicado, isso me deixou nas alturas. Fiz as revisões, assinei contrato. Tudo muito perfeito. Depois da publicação, deparei-me com um grande problema: a divulgação. Essa coisa de ser vendedor nunca foi minha praia.

Como foi o lançamento do livro?

Quando descobri que teria que me tornar vendedor resolvi não fazer lançamento. Pedi um apoio na divulgação à editora colocando o livro em seu site, mas nunca obtive, sequer, uma resposta. Neste sentido sou conservador.  Ainda não me entrou em minha cabeça essa coisa de vender o livro. Acho que o papel do escritor é outro.

Conte-nos acerca de sua trajetória após o lançamento.

Meu livro teve um caminho simples: ficou entre amigos e conhecidos. Não fiz questão que fossem impressos mais.

Quais as principais dificuldades que você enfrentou e enfrenta como escritor?

Acredito que todo escritor deseja ser reconhecido pela obra e, principalmente, ser lido. Quem poderia dar um apoio seriam as editoras, que no passado faziam questão de ‘adotar’ escritores na sua linha editorial. Abriam caminho para muitos. Hoje, com essa política de mercado, tenho dúvidas se, por exemplo, nosso grande escritor Jorge Amado seria publicado. Não duvido que a editora prefira 60 cores de alguma coisa à Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Outra dificuldade (essa é bem pessoal) é falta de tempo pra sentar e escrever. Numa sociedade que tem que viver o agora, da forma mais imediata, fica difícil dedicar-se a literatura, que graças a Deus, tem uma dinâmica própria onde nosso tempo social não tem a menor importância no processo criativo.

Outra dificuldade é a falta de espaço que os novos escritores enfrentam. Todos os meses dezenas de escritores lançam no mercado bons livros, no entanto, não vemos essa divulgação tão importante. Por outro lado, alguns grupos literários são tão fechados que parecem sociedades secretas ou religiões que criam suas normas e, só consideram válido o que estiver dentro de suas normas. Por fim, precisamos mudar um mau hábito do brasileiro: não gostar de ler. Na medida em que aumentar o número de leitores e, essa prática estiver desvinculada a uma obrigação e passar a ser um prazer, novas portas se abrirão.

Você tem elaborado estratégias para superar essas dificuldades? Quais?

Ando sempre com um caderno na bolsa.  Às vezes costumo parar nos lugares mais inusitados para escrever. É a maneira que encontro para superar essa falta de tempo. Gosto de escrever em blogs, me ajuda bastante a não deixar ficar ‘enferrujado’ na prática da escrita.

Quais são seus projetos literários atuais?

Pretendo escrever meu primeiro romance. Sinto que estou no momento deste livro. Espero que ele tenha uma trajetória diferente do primeiro, que não passe indiferente à sua existência, que possa ser, de fato, meu primeiro livro como escritor, no sentido mais tradicional da palavra. Outro projeto literário (esse é ainda mais utópico) seria criar um grupo de amigos para sentarmos, lermos, discutirmos e falarmos apenas sobre literatura. Precisamos agregar valores e ideias.

Ao encerrar essa entrevista, o que mais você gostaria de ressaltar?

Agradeço a oportunidade que Delanie está dando para falar sobre o que é ser escritor. Vejo que, em geral, os escritores ficam muito fechados em seu ofício, principalmente, os iniciantes. Oferecer este espaço em seu site é construir rotas alternativas para um caminho e missão que seguimos: sermos escritores. Isso, por si, já nos basta.

Obrigado pela oportunidade de estar compartilhando minha experiência com seus leitores.

Contato:

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